Orlando Sousa

Chamo-me Orlando Sousa, nasci numa família estruturada em Angola no ano de 1966. Tive uma infância normal, como todas as crianças, com traquinices e brincadeiras… lembro-me que, quando tinha entre os 6 e os 8 anos, fui algumas vezes fumar as pontas de cigarros que o meu pai deixava no cinzeiro. Era uma brincadeira para me armar em adulto, ou “já sou um homem grande…”

Em 1975 aconteceu a independência de Angola. Eu e a minha família (mãe, avó, 3 irmãs mais velhas e 1 irmão mais novo), viemos todos para Portugal. O meu pai veio um ano depois. Foram tempos complicados, dormia no chão, num colchão insuflável de praia, isto com 9 anos.

Ingressei na escola em Portugal, conheci novos amigos, quando cheguei à 4ª classe fiz outro tipo de amizades, também porque fui viver para outra zona da cidade.

O que me marcou bastante nessa altura, foi a diferença de mentalidades, a educação entre amigos e conhecidos. Eu não estava habituado a tanta maldade, como a que encontrei aqui em Portugal. Foi complicado até aprender a lidar com isso.

Em pouco tempo já estava a fumar cigarros sem filtro.

Depois segui para o ciclo preparatório, para o primeiro ano (5º Ano atual) e novas amizades aconteceram. Foi quando começaram as primeiras avarias com bebidas alcoólicas. Nesta altura, bebia esporadicamente em situações muito pontuais. Comecei a beber com mais frequência quando fui trabalhar com um cunhado, nas férias de Verão, na distribuição de água engarrafada. Como transpirávamos muito debaixo do Sol de Verão, a cervejinha fresca vinha mesmo a calhar. E tornou-se um hábito, a partir dai não parei até dar-me conta que estava a beber bebidas espirituosas e destiladas.

Aos 16 anos, dei as primeiras passas num charro, numa passagem de ano, numa discoteca. Desde então, fumava quando alguém do meu círculo de amigos me convidava.

Desde miúdo que tinha uma paixão por fotografia e comecei a investir em material fotográfico e comecei a fazer serviços fotográficos comerciais: casamentos, batizados, palestras, congressos, etc..

Fui convidado para fotografar eleições de misses, desfiles de moda, começando a trabalhar mais na noite e, por consequência, mais bebida, tabaco, noitadas, etc. (isto para não falar das mulheres, que sempre gostei muito).

Ao longo da vida em várias situações fui provando drogas diferentes, mas nunca injetei, o que foi bom. Como também não me viciei em nenhuma droga, só no álcool.

Em 2003 voltei a viver com a minha mãe que sofria de Alzheimer e precisava de alguém por perto. Nessa altura veio sobre mim uma grande depressão ao ver a decadência da minha mãe dia após dia. E onde é que me refugiava? Na bebida, claro!  Foi aí que também começou a minha decadência e fiquei verdadeiramente agarrado ao álcool. Comecei a viver sem horários para dormir, comer ou trabalhar, etc. Uma vida sem nenhum tipo de disciplina, até que me dei conta que precisava do álcool para ficar no meu estado normal, para conseguir sair de casa. Pois também já estava com fobia social e para sair de casa precisava de beber cerca de 2 copos de Whisky, ou uma garrafa de vinho.

Entretanto a minha mãe faleceu, mas o meu estilo de vida continuou.  Consegui parar algumas vezes, mas quando estava menos bem, voltava sempre ao mesmo.

Em 2009, não tinha trabalho, fiquei sem alojamento e foi aí que, como num ato de desespero, pedi a Deus que me ajudasse: – “Se realmente existes, faz alguma coisa para me ajudar!”

Passado uma semana e pouco, um conhecido disse-me que conhecia umas pessoas que me podiam ajudar. Com muitas dúvidas, pensei: – O que tenho eu a perder?

Então aceitei conhecer essas pessoas e fui parar ao Café Convívio de Olhão. Encontrei pessoas com o mesmo tipo de problemas e comecei a sentir-me bem lá. Falaram-me de Deus e a melhor forma de me ajudarem, era ir para o Desafio Jovem e então iniciámos o processo.

Ainda passei algumas noites na rua, porque já não tinha onde ficar, mas apesar de tudo e de estar ao frio e ao relento, sozinho sem uma cama, sem comida, eu estava confortado, eu tinha o meu coração cheio e consolado. Havia em mim uma nova esperança de uma nova vida. Algo havia mudado, e para melhor! Sentia uma alegria como nunca tinha sentido, vontade de rir do nada…foi quando percebi que estava a conhecer Deus.

Comecei a ler a Bíblia enquanto aguardava a minha entrada no Desafio Jovem. Esperei 3 meses para entrar e, quando cheguei, estava um pouco expectante, pois não sabia exatamente como era, nunca tinha estado numa comunidade antes.

Depressa descobri que era muito bom e eu tinha de aproveitar ao máximo, tudo o que havia para aprender, trabalhos diferentes, estudos individuais, estudos coletivos, a Bíblia, eu queria absorver tudo.

O meu programa para Alcoólicos tinha a duração de 6 meses, mas fiquei 6 + 6, e estive um ano. Mas eu ainda fiquei mais 6 meses e tiveram de mandar-me embora porque eu estava bem e sentia que havia ainda muito que podia aprender.

Comecei o Programa a 21/05/2009 e terminei a 28/11/2010.

Nos últimos meses de programa comecei a orar e pedir a Deus que me desse direção para o que Ele teria para mim, qual era a Sua vontade na minha vida. E foi na véspera de vir-me embora que alguém telefonou a dizer que queria falar comigo quando chegasse a Faro. Foi através dessa pessoa que Deus me falou que o projeto que estava destinado para mim (para começar) era abrir um Café Convívio em Faro e fazer pelos outros o que também fizeram por mim.

Hoje estou grato a Deus por ter-me resgatado e escolhido para ser seu filho e instrumento.

Hoje olho para trás e vejo que Ele sempre esteve comigo mesmo antes de O conhecer.

Graças a Deus, eu hoje sou um Homem Livre e Feliz!

(Tenho 3 filhas, 3 netas e 1 neto até à data 😉)

Escrito em 24/05/2020